Coragem para mudar

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Até há pouquíssimo tempo eu achava que a minha vida poderia ser resumida em antes e depois da imigração. Valorizava-a como a principal vertente da minha vida. Na verdade, até há alguns dias. Quando me propus a escrever este texto e comecei a pensar. É que eu tive, durante muito tempo, uma consideração empacotada, fechada, zipada, prontíssima para entrega – de mim para mim – quando eu divago sobre a vida. Eu achava que a minha vida tinha virado do avesso aos exatos 15 anos, no dia 18 de junho de 2009, quando embarquei junto com a minha mãe, vó e cachorro, naquele voo rumo ao Rio de Janeiro.

Depois disso, voltei pouquíssimas vezes à minha terra. Às minhas raízes. Talvez isso tenha dado um peso maior. Deixem me fazer entender: não é que deixar o meu país não tenha sido difícil, significativo e disruptivo. Foi. Agora eu vejo com outros olhos.

Eu era uma menina. Todas as minhas referências de mundo deixaram de fazer sentido. Chorei copiosamente por 9 anos por esse motivo. Sentia falta das coisas simbólicas. De conhecer o dono da padaria da esquina de casa desde pequenininha, de ter amizades desde o berço, de saber os nomes das ruas, bairros, cidades, distritos e até dos rios do meu país de cor. Aqui eu não consigo decorar nem todas as capitais dos estados. Senti um vazio por não ter os meus vizinhos, a casa em que cresci, o sotaque familiar.

No Brasil, comecei tudo do zero. Começamos, as três juntas, claro – sem esquecer do Alf, o catiorro. Achava que não iria reconstruir isso. E todos os meus esforços estavam focados em tentar. Por isso é que pesei tanto nesse “antes e depois” da mudança. Ledo engano. O segredo não era esse. A chave da felicidade não era essa.

Me mudar de Portugal me tirou de tal forma da minha zona de conforto que eu fui obrigada a, desde muito cedo, me colocar à prova. Me descobrir e me explorar. Nos meses seguintes à chegada ao Brasil eu estava numa posição de saber tão bem o que me faltava, que precisei procurar o que eu tinha. Quem eu era. E… voilá. Esse era o caminho! Não foi a minha mãe, nem avó, nem pai, nem amigas – seja de Portugal ou do Brasil. Não foi nenhum relacionamento. Sem tirar o mérito das pessoas que me ajudaram a chegar, quase que me levando pela mão, aonde estou agora. Sempre fui muito sedenta por companhia, conselhos, afetos. No entanto, a trilha do autoconhecimento eu fiz sozinha.

O choque térmico que se dá no emocional, no psicológico já dá vontade de desistir, voltar para o casulo e não sair da zona de conforto. Faz parte. É importante insistir, dar os primeiros passos, para chegarmos onde queremos. Comecei por fazer exatamente o que eu estava afim. Me permiti ser eu em todos os âmbitos.

A partir daí, então, fui experimentando.

Dos mais variados tipos de diversão, de lugares, de viagens, de pessoas, livros, músicas, estilos. A regra era nunca fazer o que eu não queria fazer. Aprendi a dizer que não. E, com isso, abri a portinhola do ˜sim˜. Escolhi o curso que eu queria, fui atrás da profissão que sonhava. Andei com as amigas que me faziam bem, fazendo programas que me deixavam feliz. Comecei a entender o que eu sentia, quem eu era, a dizer sim para mim e para a minha essência.

Deste dia em que escrevo este texto, posso enxergar a minha imigração de outra forma. A primeira, na forma de gratidão à minha pátria (lamechas, hã?). Depois, como um pontapé para um mundo de infinidades. Nunca poderia ver desta forma se não me permitisse. Talvez eu ficasse enclausurada na amargura de contestar o fado. E por isso, não poderia dividir a minha vida em dois grandes momentos. É, na verdade, uma grande montanha russa de emoções. A cada dia, uma nova descoberta. Novas fases surgindo de forma cíclica – e necessária.

Já aconteceu tanta coisa depois de aquele voo aterrizar. Eu mudei de casa. Uma, duas vezes. Mudei de cidade. Comecei a estudar numa escola nova. Fiz amigos. Comecei a namorar. Mudei de escola. Fiz amigos. Terminei um namoro. Comecei a estudar jornalismo. Mudei de casa. Passei a falar com sotaque brasileiro. Fui aprovada em um, dois estágios. Fui demitida desse último. O que me levou a um processo seletivo que mudaria a vida. Entrei na Globo. Sonho de consumo.

Não tive maturidade. Fui demitida.

Fui aprovada em outro estágio em outra emissora de televisão. São pouquíssimas no Brasil! Agarrei a oportunidade como se fosse a minha própria vida. E era.

Fui contratada pela Band. Fui promovida. Uma, duas vezes.

Me mudei para São Paulo. Sozinha! Que loucura. Tudo de novo? Vambora! De repórter, passei a apresentar o jornal. Logo depois, mais desafios: um informativo só meu! Nesse meio tempo, me apaixonei. O Lucas veio morar comigo. Os dois sozinhos? Ele saiu de Floripa por mim, para mim. Eu estava aqui, mais uma vez, sem referências. Poucos amigos, foco no trabalho, no relacionamento, em mim. Na minha felicidade. No dia a dia.

Desisti de tentar criar raízes. Percebi que os meus pés estão fincados exatamente onde eles pertencem: ao mundo. Eu me mudo, planto e replanto em qualquer lugar que precisar. Floresço sempre! Com uma condição: a minha mente precisa estar lá no topo, livre pra voar.

E que venham as próximas mudanças!

SEGUNDA COM A SETTA

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