Uma tarefa pequena, se repetida diariamente, pode superar todos os trabalhos de Hércules.
Anthony Trollope

Eu aprendi a amarrar meus cadarços aos 28 anos. Espera! Não é que eu seja tão preguiçoso nem acomodado, ou que alguém amarrasse pra mim durante todos esses anos, é que sempre amarrei do jeito errado. Depois de assistir um dos vídeos do TED Talks, que eu sou viciado, descobri que existe um jeito melhor de amarrar e decidi que ia mudar esse hábito.

No começo, me senti novamente uma criança, sem qualquer coordenação nas mãos e nos dedos, o nó saía frouxo, eu precisava prestar muita atenção no que estava fazendo e demorava muito tempo para amarrar um simples cadarço. Depois de algumas semanas, isso foi se tornando cada vez mais fácil, mais rápido e mais automático. Eu já não precisava pensar em como fazer e se, hoje, eu tentar amarrar da forma como amarrei durante 28 anos, simplesmente não vou conseguir e terei que “reaprender”, com muita dificuldade.

Nesse artigo, irei apresentar como a ciência explica a formação de um hábito. Também irei mostrar como você pode aplicar isso na sua vida para atingir seus objetivos futuros. Vamos lá?

O que é um hábito?

Tenta me descrever como você escova os dentes. Escova antes ou depois de passar fio-dental? Você aperta o tubo de pasta no final ou no meio? Você escova na frente do espelho ou sai perambulando pela casa, enquanto faz outras coisas? Por qual dente você começa a escovação: incisivos, molares ou pré-molares?

A verdade é que, muito provavelmente, você teve dificuldade de descrever todo o processo. Isso acontece porque escovar os dentes é um hábito. Tá bom, mas o que é um hábito?

Hábito é um comportamento aprendido, ativado pelo contexto, realizado, quase sempre, no mesmo local e horário, e que, em algum momento, foi feito de forma consciente, mas com o tempo se tornou automático. Por isso, para mim, foi difícil “reaprender” a amarrar os cadarços – e para você lembrar a rotina de escovar os dentes. Hábitos são automáticos e não-conscientes.

À propósito, se você aperta o tubo da pasta no meio, nós nunca seremos amigos. Me dá peninha ver o tubo assim, esmagado, sem dó nem piedade.

Qual a importância de um hábito?

Hábitos revelam quem realmente somos e são importantes pois nos tornam eficientes em tarefas específicas. Eles formam parte de nossa identidade e nos ajudam a atingir nossos objetivos.
Nos tornamos eficientes pois nosso cérebro precisa de menos energia para fazer uma mesma tarefa e assim podemos nos concentrar em coisas que não conseguíamos antes. Quem será que gasta mais energia tocando a 9ª Sinfonia de Beethoven: um iniciante que está aprendendo a postura e posição das mãos corretas, ou uma profissional com 15 anos de orquestra?

Ao repetir comportamentos em uma rotina, nosso cérebro passa a processar tais comportamentos em áreas mais automáticas e não-conscientes. Por isso, uma musicista profissional tem mais espaço livre na sua mente para interpretar e improvisar em cima de uma obra. Nós também somos capazes processar automaticamente, como quando cozinhamos, conversamos e cuidamos de crianças, tudo ao mesmo tempo. Também quando dirigimos e prestamos atenção nos pedestres, placas, etc – mas quando estamos aprendendo a cozinhar ou a dirigir, precisamos de atenção total e não automática.

Nossa identidade pode ser definida por hábitos e vice-versa. Ou seja: podemos escolher quais hábitos adotar, para nos tornarmos o tipo de pessoa que desejamos ser. Por outro lado, certos hábitos podem estar nos afastando daquilo que desejamos para nós. Pense nisso com muita seriedade. É melhor formarmos nossos hábitos antes que eles nos formem.

 

O que ciência diz sobre isso?

Você já deve saber que para criar um hábito é necessário muita repetição, mas, além disso, é importante que algo aconteça antes e depois do comportamento que forma o hábito.

O que acontece antes, vamos chamar de deixa ambiental. Essa deixa é um sinal, um indicativo, que vai dar início ao hábito. Por exemplo: o semáforo vermelho é a deixa para pisar no freio; o verde, para pisar no acelerador. Essas deixas são muito claras, mas quando pensamos em nosso dia a dia, isso pode ser mais difícil de identificar.

Qual deixa ativa seu comportamento de escovar os dentes? Terminar o cafezinho? À noite, sua deixa seria vestir seu pijama, desligar a TV ou laptop, fazer xixi ou apagar as luzes da casa? Agora, somos capazes de entender e identificar quais são as deixas que ativam os mais variados hábitos em nossas vidas. Uma deixa nos faz querer sempre tomar um café ou comer um doce; outra deixa nos faz checar o celular por mensagens e alertas; outra deixa nos indica que é hora de começar a trabalhar.

O que vem depois de um hábito é a recompensa. Dificilmente iremos adotar um hábito se não houver algum tipo de recompensa, que seja diretamente ligada a um determinado comportamento.

Como realmente funciona uma recompensa de um hábito?

Para um hábito realmente se solidificar, o melhor é que a recompensa seja uma consequência direta do hábito e não algo externo. Por exemplo, se você criar o hábito de ler 15 minutos diariamente, suas recompensas diretas serão novos conhecimentos e aprendizados. Uma recompensa externa seria você se permitir jogar video game por horas porque completou um novo hábito. Já as recompensas diretas de uma corrida de 20 minutos são a endorfina circulando pelo seu cérebro; poder correr em um menor tempo; superar desafios ou emagrecer. A recompensa não pode ser tomar uma taça de sorvete. Buscar recompensas externas pode atrapalhar a construção de um novo hábito.

Um hábito não está formado sem um último elemento: o desejo. Depois que nos damos conta que nossos hábitos nos dão recompensas, nosso cérebro passa a desejar tal comportamento. Esse modelo é muito poderoso, pois através dele, podemos formar hábitos que nos levarão a objetivos grandiosos, capazes de nos libertar, mas também nos tornar escravos de comportamentos inconscientes, que vão contra nossos ideais de vida.

Agora que você entende mais sobre como criar e mudar hábitos, vou contar uma história de quando eu e um amigo fizemos um curso de meditação. Nós dois voltamos muito animados em estabelecer este novo hábito. Eu me propus a acordar, tomar um copo de água na cozinha, e logo sentar na minha almofada de meditação por 40 minutos a 1 hora. Meu amigo estava bem mais entusiasmado que eu e chegava a meditar 5 horas por dia! Ele trabalhava de casa mesmo e sempre que tinha um tempinho ou se lembrava, ele ia lá na almofada dele por 10 ou às vezes 50 minutos.

Quem você acha que conseguiu adquirir um novo hábito? A pessoa que tinha sempre uma mesma deixa ambiental no mesmo horário do dia, ou a pessoa que meditava em horas diferentes com deixas diferentes? Resultado: meu amigo meditou 5 horas por dia, por 1 mês. Eu medito 1 hora por dia, há 5 anos.

Depois de ler este texto, quero te convidar a refletir sobre quais deixas, comportamentos e recompensas te levarão a adotar novos hábitos. Caso não consiga, por um dia, cumprir um hábito, não perca tempo falando mal de você, nem se desespere – apenas crie a deixa ambiental correta, comece o comportamento e desfrute da sua recompensa.

Ao longo do tempo, tudo na sua vida poderá estar indo na direção que você sempre desejou. Vai dar certo! Confie em mim, ou melhor… confie na ciência!