SETTA – Você acredita que existe uma dificuldade das pessoas em expressar emoções?

ROBERTA FALLEIRO – Eu não diria que não sabemos nos expressar, eu diria que temos medo. E mais do que isso, temos dificuldade em ter clareza a respeito do que sentimos – sintomas de raiva, medo, angústia, tristeza. Muitas vezes, reconhecemos que algo causa um desconforto imenso, mas não sabemos muito bem identificar qual a emoção por trás desse desconforto e, quando conseguimos, o que acontece é uma apreensão em expor. Isso acontece por dois motivos: primeiro, não aprendemos essa prática e, pior do que isso, a sociedade contemporânea não nos incentiva a demonstrar o que sentimos. Frequentemente, quando finalmente o fazemos, somos penalizados. Todo mundo já levou um “gelo” por desagradar o outro ao falar talvez de uma forma meio desengonçada sobre o que estava sentindo.

Pegamos como exemplo as crianças que, quando choram, são reprimidas. Já os adultos são taxados de fracos ou descontrolados por chorarem ou sentirem raiva. Esconder os sentimentos, então, passa a ser o comportamento padrão para ser aceito. 

Existe diferença entre homens e mulheres quando falamos sobre expressar emoções? 

Sim, existe uma diferença. Os homens têm maior dificuldade, por uma questão cultural, de expressar tristeza, falar de seus problemas e medos. Isso é decorrente do nosso modelo de sociedade, que diz que o homem é o provedor, que tem que ser forte e, com isso, associamos força à frieza e falta de sensibilidade. 

Já as mulheres enfrentam outro estigma. Ao demonstrarem raiva, são consideradas histéricas, descontroladas, e ainda escutam frases como “assim nunca vai conseguir casar”. 

Esses são preconceitos que ambos os lados enfrentam. Mulheres são legitimadas a demonstrar tristeza, mas não raiva enquanto homens “podem” demonstrar raiva, mas não tristeza. A conclusão que chegamos é que vivemos em uma sociedade adoecida e que necessita de ajuda.

Como isso afeta as pessoas na vida profissional?

Na verdade, separar vida profissional e pessoal é uma ilusão. Digo isso porque não somos uma pessoa diferente dependendo do ambiente em que nos encontramos. Podemos até forçar comportamentos distintos, porém a vida que levamos reflete nos ambientes que  frequentamos. Se você não está bem na vida pessoal, isso vai refletir na sua vida profissional e vice-versa.  

A questão aqui é a falta de espaço para falar de medos, tristeza, raiva ou qualquer outro sentimento. Falta de espaço pra sermos verdadeiramente quem somos e sermos aceitos por isso, falarmos da nossas necessidades. O que preciso agora pra me sentir bem com as pessoas que convivo nesse ambiente?

O que as pessoas podem fazer para conseguir expressar suas emoções sem medo, insegurança ou vergonha? 

Existem diversas possibilidades, mas o que falta é algo simples: espaços onde as pessoas possam se expressar e se sentir acolhidas em seus atrapalhamentos, livres de julgamentos. 

O trabalho com justiça restaurativa cria espaços seguros, que promovem diálogos, através de técnicas do trabalho em círculo, deixando as pessoas tranquilas para falarem sobre suas vidas, sentimentos, pensamentos, necessidades. 

Consequentemente, há uma transformação, dentro de espaços pessoais ou profissionais, que possibilita um melhor relacionamento inter e intrapessoal. 

Você acredita que existe um “auto julgamento”? 

O “auto julgamento” existe e é fruto de uma sociedade que julga, sem oferecer a possibilidade do erro. “Você não pode errar” é uma das frases mais dolorosas que pode existir. Ela gera uma necessidade de perfeição impossível de alcançar e que não dá lugar para o erro existir.  Assim, perdemos a noção de que o acerto nada mais é do que diversos erros em sequência. Com isso, é criada a cultura do medo constante. O julgamento já existe antes mesmo de tentar algo diferente.

Entrevistada por Glenda Lud